Eu sou até uma pessoa paciente, mas Sicrana insiste em falar sobre Beltrano, seu marido, que tem uma queda para desaparecer em bares sem dar qualquer satisfação. Ela diz que fica preocupada, com a violência de nossos dias. A cada desaparecimento ela, ansiosa, se pergunta o que aconteceu com ele. Passado às horas, no fim do dia, ele sempre aparece um tanto quanto cambaleante, mas sem a intenção de explicações e com toda, para a briga. O acontecido acontece repetidamente e sempre ela pensa a mesma coisa e sempre se aborrece quando ele chega bem. Talvez se a tragédia pensada acontecesse não fosse tão ruim, mas a tristeza seria grande; como não acontece, a raiva é maior que a alegria de vê-lo, porque são e salvo certamente ele não está. Na espera angustiante ela começa a ladainha se questionando e a mim onde ele está. Será que aconteceu algum acidente? Porque além de tudo ele sai de carro e é um tipo explosivo, que não traz desaforo para casa. Será que está na casa da mãe? Ela liga para Dona Beltrana. Resposta negativa, pergunta a mim ou será ao mundo - onde ele está, diz que está preocupada e nem adianta minha resposta sensata que ele está bem, só desapareceu em tantos bares pelo subúrbio pobre. E se desta vez aconteceu alguma coisa!, Ele sabe que eu fico preocupada, poderia me ligar. Quando chega, furiosa, esbraveja comigo o quão o safado Beltrano é, apaga a luz de leve quando escuta os pneus rangendo, tranca a porta. Os minutos são aguardados e abafados. Quando ele entra, já recebe a pergunta raivosa Onde você estava? Sem muita disposição a explicações, às vezes entra no quarto, na maioria das vezes sai novamente. Algumas retorna em seguida disposta a brigar; outras vai à casa da mãe. Seja qual for a opção que ele tomar, ela diz que o largará, que não agüenta mais aquela vida. Sempre, ela esbraveja comigo, como seu pudesse mudar magicamente aquela situação. Eu só me pergunto o porquê deu sempre ter que pacientemente ouvir todas as suas queixas e passar a vida escutando eternos lamentos de gangorra. Eu estou certa!, ela diz quando demonstro impaciência para ouvir, talvez acreditando que minha impaciência é discordância. Era tão mais fácil perceber que eu não sei o que fazer, que eu nem sou casada e se um dia for, que eu não entre neste jogo que não tem fim. Terminado os reclames, no outro dia ele aparece. O clima fica ruim, mas logo depois, às vezes com um pouco mais de tempo, ela o perdoa. Um perdão com prazo de validade. Um perdão que custará caro se transformando em mais raiva, uma pontinha a mais, na próxima vez. E assim, nesta gangorra, Sicrana vive. Tanto se acostumou com esta vida, que mesmo sempre falando a mim que quer viver sozinha desta vez, no fundo quer mesmo viver este círculo que ela mesma criou. Contudo, desta vez, eu resolvi sair. Falar não é mais possível, ouvir não é permitido, me tranco no quarto e me recuso a escutar. Vocês, que são gente grande, resolvam os seus problemas. Eu, neste baile, não quero mais dançar.
Segunda-feira, Novembro 21, 2005
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