Quarta-feira, Novembro 16, 2005

identidade mia

O que é identidade além desta coisa fugidia que quando tentamos agarrar, escorre de nossas mãos. Inexistente, como o tempo, que quando se diz presente já se passou em segundos; agora o que sou... passou há poucos instantes. Eu estive o que estou neste momento. Identidade, coisa que não existe em sua totalidade, mas na sua multiplicidade. Não somos uno, apenas múltiplos de tanta incoerência. Eu estou, e nestes múltiplos estás está minha identidade. Não acreditemos que identidade rima com um, isso apenas empobrece. O que sou é apenas estes sucessíveis eus que encontram as diversas pessoas e se molda. E quem diz que é a si mesmo todo o tempo, perde a chance de entrar no inconsciente e descobrir um eu novinho saindo lá de dentro. Eu sou, expressão definitiva demais para alguém com apenas vinte e poucos anos. Eu prefiro, eu estou... estou aqui, estou nesta profissão, eu quero ser tudo que eu puder. Eu estou filha, eu estou amiga, eu estou mãe, eu estou mulher; eu estou irmã, eu estou manhãs, eu estou amante, eu estou (des)empregada: a vida são bailes diversos, cada um com roupa própria a se vestir. O que é um nome, além dum nome. O que ele designa, além da pluralidade. Não, eu não sou um número de identificação – ou milhares deles – mas, algumas vezes, eu também estou números, mesmo que não queira. Eu estou um nome e o uso ao prazer do meu eu. Hoje Dulcinea, amanhã Dulce, Nea, Bem, Querida, ou seja quem. O que não dá e para se assumir com um único e completo ser que depois de certa idade é o mesmo o resto da vida. De que adianta viver uma longa vida se não for para sermos infinito, o mais infinito que nossa finitude enquanto estares nos permite. Se alguém perguntar o que sou, direi que estou hoje estrela colorida com um pé na felicidade, outro na ansiedade, uma mão já na saudade, e a outra aguardando uma mão – a sua - que me balance e me traga a luz uma outra pessoa que eu não conhecia em mim, mas que eu terei o maior de conviver. Seja doida, sã, normal, anormal ou diferente, o que eu não quero é ser a mesma caixa quadrada a que o mundo me encaixa e me aprisiona. O que não tolero é se estar feliz em ser a mesma coisa, fazer a mesma coisa, o resto da vida.