O que é identidade além desta coisa fugidia que quando tentamos agarrar, escorre de nossas mãos. Inexistente, como o tempo, que quando se diz presente já se passou em segundos; agora o que sou... passou há poucos instantes. Eu estive o que estou neste momento. Identidade, coisa que não existe em sua totalidade, mas na sua multiplicidade. Não somos uno, apenas múltiplos de tanta incoerência. Eu estou, e nestes múltiplos estás está minha identidade. Não acreditemos que identidade rima com um, isso apenas empobrece. O que sou é apenas estes sucessíveis eus que encontram as diversas pessoas e se molda. E quem diz que é a si mesmo todo o tempo, perde a chance de entrar no inconsciente e descobrir um eu novinho saindo lá de dentro. Eu sou, expressão definitiva demais para alguém com apenas vinte e poucos anos. Eu prefiro, eu estou... estou aqui, estou nesta profissão, eu quero ser tudo que eu puder. Eu estou filha, eu estou amiga, eu estou mãe, eu estou mulher; eu estou irmã, eu estou manhãs, eu estou amante, eu estou (des)empregada: a vida são bailes diversos, cada um com roupa própria a se vestir. O que é um nome, além dum nome. O que ele designa, além da pluralidade. Não, eu não sou um número de identificação ou milhares deles mas, algumas vezes, eu também estou números, mesmo que não queira. Eu estou um nome e o uso ao prazer do meu eu. Hoje Dulcinea, amanhã Dulce, Nea, Bem, Querida, ou seja quem. O que não dá e para se assumir com um único e completo ser que depois de certa idade é o mesmo o resto da vida. De que adianta viver uma longa vida se não for para sermos infinito, o mais infinito que nossa finitude enquanto estares nos permite. Se alguém perguntar o que sou, direi que estou hoje estrela colorida com um pé na felicidade, outro na ansiedade, uma mão já na saudade, e a outra aguardando uma mão a sua - que me balance e me traga a luz uma outra pessoa que eu não conhecia em mim, mas que eu terei o maior de conviver. Seja doida, sã, normal, anormal ou diferente, o que eu não quero é ser a mesma caixa quadrada a que o mundo me encaixa e me aprisiona. O que não tolero é se estar feliz em ser a mesma coisa, fazer a mesma coisa, o resto da vida.
Quarta-feira, Novembro 16, 2005
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