Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

1. onde? UPDATE

Seele acorda numa cama com lençóis vermelhos escarlate com o barulho do celular a tocar. Ainda sonolenta olha ao redor tentando reconhecer-se. Atende o insistente telefone. Era ele a perguntar onde ela estava. “Em casa”, ela responde com voz mole. “Em casa onde?”, diz contrariado. “No quarto”, “No nosso?”, “O que você quer?”, ela acordada e zangada com aquela conversa. “Eu quero te achar”. “Então, eu estou aqui”. “Não está não”, diz ele com voz estranhamente furiosa. Já acordada Seele começa a observar o quarto amarelado, os móveis descoloridos e a rachadura que ia do teto e atravessava toda parede do lado esquerdo como em todos os outros dias. “Onde você está?”, ele pergunta novamente, agora preocupado. “Estou em casa e você?”, “Eu estou em casa”. Depois de um suspiro profundo enquanto olhava o quadro detestável de um lugar que ela nunca gostou, mas que ele adorou e escolheu, retruca, “Pare com esta brincadeira que já não tem graça nenhuma” e desliga o telefone para o recebê-lo no portão. Veste o casacão preto e o ténis velho que estavam no armário, olha a cara amassada e os olhos vermelhos no espelho em cima da cómoda e sai pela porta que dá para varanda pensando que ainda tinha grande paciência para as brincadeiras infantis – que ela amava – dele.

O que primeiro a assustou foi dar de cara, não com o mar, mas com uma montanha em frente a casa, como se de repente fosse possível tirar o mar azul – que ela fartava-se de olhar – que ficava a dois quilómetros e colocar uma atividade rochosa na mesma distância. Segundo foi a escada de cimento que dava para o quintal do vizinho de trás, que não existia, mas está lá. Fecha os olhos, ainda pensando estar sonolenta. Mas quanto mais acordada estava, e olhava ao redor, via uma varanda parecida com a sua, mas com vista às montanhas e uma escada que dava ao quintal do vizinho e não ao portão. Olha a frente da casa e não o vê e nem os carros que costumam estar estacionados pela rua movimentada onde morava, mas uma estradinha de terra que ziguezagueava elevação montanhosa acima até o que parecia uma estrada principal. Seele poderia pensar tratar-se dum sonho, mas não pensou, talvez porque dele se tratasse; e não compreendesse que só num sonho a casa dela mudaria de posição geográfica de plena cidade para qualquer lugar no campo, ou talvez, do mundo. Sentia uma incompreensão máxima, mas seu cérebro bloqueado parecia não conseguir achar uma resposta satisfatória. Sentia a estranheza máxima de saber-se acordada numa casa que no fim não era sua, mas uma outra que não sabia de quem era e onde ficava.

Fica ali parada sem saber muito bem o que fazer. Volta para o quarto com uma ideia: procurar o celular e telefonar a ele. Agarra o objeto desesperadamente, pensando tratar-se duma neurose qualquer que a acometia, porque por mais que pensasse sempre lembrava do momento que estacionou o carro, entrou em casa, tirou o casaco e deitou vestida apenas com a calça e o sutiã. Disca o número dois, mas pára a chamada no instante que escuta uma voz masculina estranha que vinha lá de baixo. Abaixa-se atrás da cómoda para que o estranho não a visse se a subisse a escada. Conversava com alguém, provavelmente por telefone, ela notou. Não falava a língua dela, mas uma outra que ela conhecia. Dizia que ainda não sabia se alguém ainda estava em casa ou se já tinha saído, usou um termo que indefinia o sexo. Seele percebe que as respostas são frias e que o interlocutor não deve ser próximo do dono da voz. Levanta-se, aproveita que não será percebida e sai novamente para a varanda, mas agora com muito cuidado. Estranhamente não tinha medo, mas sentia que não devia ficar ali para saber o que havia acontecido. Tinha que voltar para casa, sem saber exatamente onde sua casa ficava. Lá fora olha os fundos de outras casas, as escadas se encontrando uma com as outras. Desce em passos apressados para o quintal do vizinho.