Segunda-feira, Março 12, 2007

3. onde? UPDATE

Via as árvores enquanto contornava a linha de trem. Em frente, apertando o corpo com as mãos enquanto o frio do fim de tarde chegava. Caminhava apressada, quase num ritmo mutante, pensou. Estava tão confusa, de uma confusão que já não era humana, assim como pouco humano era o fato de acordar numa casa que era tão igual a sua, mas não o era. Sonho? Qual fora a última coisa que fez antes de dormir? O que tinha feito durante o dia? Lembra que estava cansada, por isso adormeceu. Cansada de quê? Quando foi a última vez que o viu. De manhã foi a resposta imediata do seu cérebro, mas enganadora, pensou em seguida. Não o viu de manhã, não recordava a última vez que o viu. Á noite? Ontem à noite? Estava no mercado.

Pela manhã ele a acordou com um beijo. Pelo menos lembra dum beijo pela manhã, mas não parecia ele. Por mais louca que a história soava, intimamente tinha uma certeza sensata que aquilo tudo teria algum coeso sentido. OK, estava andando por um lugar esmo que mal conhecia, com a impressão que aquele lugar de algum modo se parecia com o seu, sem o ser, com um amor que soava o seu, mas diferente, como se ela própria fosse outra e não ela mesma, mas qual era o erro disso?

Nas árvores, na neblina e no frio – tinha ido até a serra – pensou para logo depois um pensamento estranho surgir de dentro dela: ela nunca foi até as serras, a ela não o era permitido. Depois riu-se com a brincadeira pregada pelos seus pensamentos, para logo depois ficar num inquieto silêncio como se ela pudesse estar se enganando, como se quisesse viver aquela realidade que não era sua. E qual era a sua realidade? A casa na praia, as montanhas? Ele disse, a cidade, o mercado. Tinha na sua cabeça a imagem da cidade e do mercado, os conhecia, então era esta a realidade, ou não a seria. Quieta corre, corre e chega numa estação sem fôlego. Senta-se num banco e espera o trem passar. Frio, muito frio, ela sentia. Aos tropeços sente o coração, aos tropeços sente o trem chegar e nele entra.