Sábado, Março 17, 2007

4. onde? UPDATE

O trem quietamente deixa a estação e desce em ritmo acelerado. Estava com o capuz, sabia que o tinha que usar. Olha com interesse o interior cómodo e vazio do comboio. Ninguém em direção à cidade. Olha a paisagem nublada e fria lá fora, enquanto o trem ganha ritmo acelerado encosta abaixo. Na última estação antes da cidade, segundo dizia uma voz mecânica, subiram mais três pessoas, também escondidas marginalmente como ela. Todos em cada ponto, não misturados. Ela olha com interesse as pessoas. Uma certamente era uma mulher, podia notar pelo modo como placidamente sentou-se e aguardava a sua estação. De bolsa encostada ao colo enquanto fingia olhar com interesse as nuvens lá fora. Seele entra em pânico quando percebe que dava entrada no túnel, seguindo o corredor norte. O túnel, tinha atravessado o túnel? Não era à toa que ele parecia preocupado ao telefone. Atravessar o muro invisível entre o qual vivia, era quase um pecado imperdoável. E ela, imerecidamente, tinha colocado os pés junto a eles. De repente, quase tudo fazia um sentido enorme, com exceção de como ela ter parado lá em cima.

A escuridão acaba e dá com a luz do sol sufocante das sete horas da tarde. Desce na estação principal que ficava a alguns metros do mercado. Anda com uma sonâmbula ao oeste entre os rostos encardidos dos imigrantes, parecidos com o dela, também imigrante mesmo tendo nascido ali mesmo naquela cidade, bem longe do mercado principal onde uma mistura de rostos, cores e línguas eram cuspidas. Ela as entendia perfeitamente, principalmente a língua dela, a antiga língua da cidade. A maioria destas línguas apenas não mortas por causa daquela gente que misturavam palavras das suas próprias língua com a língua oficial, num tributo a elas.

Vendia-se de tudo no mercado, que era muito grande, mas sabia perfeitamente onde encontrá-lo, na área onde sempre vivia ela, a dos livros velhos. Muitos daqueles a olham, balançam a cabeça ou mostram um meio sorriso de reconhecimento. Velhos e jovens, homens e mulheres, todos a procura dum último objeto antes de se dirigirem às suas casas. “Hola, hola miss” diz um homem velho e desdentado enquanto mostra um livro num língua antiga, dum autor antigo que ela já estivera a pesquisar. “Gracias, not today”, diz enquanto caminha apressada reconhecendo as costas do homem com que sonhara toda aquele dia.

Abraça-o por trás, o que não surpreendeu a ninguém presente, mas apenas a ele próprio. “O que estás a fazer?”, ele pergunta assustado sem qualquer sotaque ou misturas, enquanto rapidamente se desvencilha dela. Ela fica vermelhamente envergonhada, com as mãos a abanar o ar e muda, esquisitamente muda. Ele a puxa pelo braço enquanto saem do burburinho de vozes já desconexas que berravam ao mesmo tempo. Saem por trás, na porta que segundo a placa dava a loviciti. Lá fora, o ambiente já mudava, pessoas limpas, da cidade andavam apressadas depois do fim de expediente, enquanto ainda se via o vermelho a cair do céu. Ele larga o braço dela que até então agarrava com raiva; desamparada, ela prende-se a ele e o abraça. As pessoas de cara limpa os olham e começam a correr em pânico. Ele a empurra, “você está doida?” De repente, a caixa de pandora abriu-se, e toda a merda do mundo em que vivia começou a fazer sentido. “De repente, não mais que de repente”, lembrou-se que ela não morava em frente ao mar, e muito menos vivia numa casa. Com a mesma velocidade e espanto, lembrou-se que ele não era dela e que o conheceu na noite anterior ali mesmo, enquanto comprava um livro proibido. Com mau-estar e tristeza, lembrou que voltara novamente a viver o enredo de mais um livro e este nem se quer terminou de ler. E, por fim, e o mais espantoso, é que não sabia o porquê de ter atravessado os muros em direção a eles.